“A vida pra estar só”*
“Eu te avistei no meio de tanta gente feliz
e resisti por não ser igual
fiquei ao seu lado buscando um aval” *
Hoje eu almocei sozinha (por almoçar entenda comer dois pães de queijo e tomar um Vanilla na SB); e eu não tenho costume disso.
A comida desce meio torta geralmente. Não gosto de dividir uma mesa com a minha bolsa e meu casaco apenas. Viajo em olhares curiosos da minha solidão. Não gosto.
Mas hoje eu gostei, e não tenho costume disso. De repente tudo que eu precisava era daquele momento, meu e somente meu. Na companhia de uma bebida quente.
Saí de lá e passei algumas horas em uma sala teste. Análise. Questionamentos. Expectativas, desta vez sem pressão. Foi leve, como algo que deveria passar. Sem tremores, sem gaguejos, sem devaneios pessoais. E eu não tenho costume disso. Não faz tanta diferença.
Depois o metrô e o ônibus. Cheguei cedo no 359, fiquei lá sentada de expectadora. Mera curiosa de detalhes alheios. Uma bolsa com estampa divertida já vista no Center 3, o livro mais novo do autor preferido, um cabelo que lembra motivos da minha saudade, um sorriso ao cobrador. Algumas vezes dá até vontade de se aproximar de um desconhecido… E eu não tenho costume disso.
No caminho das ruas pra casa o vento frio batia no meu rosto a cada passo. Podia ser um tapa pra muitos, pra mim é um afago. A lua lá de longe iluminava meus passos. E era o que me bastava. Estava satisfeita, e eu definitivamente não tenho costume disso.
“(…) a 10 nós pra algum lugar”*
* Poléxia – A solidão dos Planctons (a música) em Poléxia – A força do hábito (o disco)
Cristal
Fragilidade. A palavra que ecoa em meus ouvidos. Há algumas horas ela está aqui, insistente, brilhante, e ironicamente ameaçadora.
Como lutar sem saber? Como ajudar sem poder? Como sentir sem querer?
A vida é muito frágil, os laços são estreitos e as ligações facilmente cortadas.
A fragilidade realmente me assusta. Principalmente porque do meu lado, ela praticamente inexiste.
Insatisfação full time
Tenho acumulado promessas, conversas no ar, atenções devidas e pensamentos inacabados.
Tenho sentido o que não queria e deixado de aproveitar momentos importantes. Tenho apenas deixado estar. Tenho sido acometida por uma insatisfação progressiva e gradativa.
Tenho sido medíocre. E tenho muita preguiça.
Tenho sido uma esponja dos malefícios de certas pessoas. Tenho aguentado quieta situações que parecem nunca se resolver. Mas cansa.
Dos meus defeitos, ao menos, tenho plena consciência. Sei muito bem que não tenho dado o melhor de mim para os que mais merecem. E isso me machuca muito, talvez mais do que a vocês.
Peço desculpas e acumulo mais uma promessa: eu vou melhorar. Assim que a preguiça passar. Pensem pelo lado bom, ao menos a sinceridade eu não acumulo.
Permissão
Permito-me, sempre que possível, momentos de prazer imediato e isentos de culpa.
Uma barra de chocolate antes do almoço ou horas de sono depois dele. Uma música suave no meio do trabalho.
Chegar aos lábios dele no meio de um devaneio. Fantasiar como criança com um mundo encantado, ou me desligar da realidade saindo aos poucos das cores e sons. Jogar um pensamento breve neste blog.
Faz bem e é de graça. Que mal pode ter?
Permito-me momentos sem culpa porque, em contrapartida, os dias carregados de peso e dedos apontados na face são inúmeros; e por ora, inesgotáveis.
Pensar pra quê?
Escrevo aqui na contramão de idéias e assuntos que me assaltam durante o dia. Escrevo aqui bem menos do que me proponho. Escrevo aqui sem nenhum compromisso, sem nenhum ritual e sem nenhuma periodicidade. Escrevo aqui quando me rendo, quando resolvo assumir que penso.
Pensar pode trazer melancolia na maioria do tempo. Tenho evitado pensar só por pensar. Pensar pra refletir. Pensar pra assumir. Pensar pra constatar. Pensar como um tapa na cara pra acordar e enxergar a vida do jeitinho que ela se apresenta.
Tenho preferido fotografar. Só a parte bela da vida. Só as imagens que não devem sair de cena. Aquelas que devem ficar pra sempre guardadas na memória, no papel e em uma mídia qualquer.
Ontem foi um dia desses, em que juntei amigos, idéias e minha câmera. Rende boas risadas, provalvemente algumas boas fotos. (Acharam que eu fazia um favor, mas na verdade a favorecida master fui eu. Poder “brincar” do que eu realmente queria-ser-quando-crescer é mágico.)
E o pensar fica pra depois, quando se torna inevitável, em uma viagem longa de ônibus sem MP3 ou em um plantão de domingo solitário.
“Hoje quando o sol saiu…”
Sou uma pessoa insatisfeita por natureza. Sempre quero mais. Sempre espero mais. Sempre acho que tudo devia ser perfeito; mesmo quando é bom. Bom apenas não basta, muito menos sacia.
Dona de uma apetite enorme, quero engolir o mundo de uma abocanhada só e aí, geralmente me engasgo. Fica aquele monte de informações, sentimentos e acontecimentos… todos se confundindo com o meu refluxo e se embolando dentro de mim. Certas vezes tudo isso tem até a ousadia de voltar e cair bem na minha frente, e aí eu tropeço, caio feio. Machuca. Geralmente não aprendo.
Em alguns dias perdidos e raros no entanto, me surpreendo com uma satisfação imensa em forma de sorriso estampado no rosto na hora de dormir. Só aí que percebo a felicidade que coisas simples podem proporcionar. Boa música, bons amigos e novas formas de encarar certas coisas.
Não é necessário ser perfeito. Satisfação em formato pocket preenche o vazio e não ameaça ninguém. Muito menos eu.
Uma lente e nada mais
Queria que meus olhos fossem dotados de um diafragma e um obturador. Tudo que eu quisesse registrar seria questão apenas de olhar atentamente para ajustar o foco e piscar bem rápido.
Tenho visto o mundo com olhos de uma lente mecânica qualquer. Fixo o olhar, enquadro e penso que tal imagem ficaria linda em uma moldura, ou em uma parede qualquer. Têm também aquelas que deviam ser queimadas, veladas ou deletadas, à gosto do freguês.
Na última segunda, enquanto esperava sentada no primeiro ponto de ônibus da avenida Paulista quase fui capaz de tal fato. Olhei tanto tempo para aquele prédio e a dança das nuvens refletidas nas janelas espelhadas que sinto que guardei a imagem aqui dentro de mim, em algum lugar. Um lugar de fácil acesso, para sempre que precisar de um pouco de paz.
Nessas horas que percebo; devo levar mais minha câmera pra passear.
O mundo sempre fica mais bonito.
coisas
Têm coisas que uma vez quebradas, por mais que remendos sejam feitos, sempre permanecerão quebradas.
E por mais que o porquê seja questionado, também tem coisas que nunca serão respondidas de modo convincente.
Mais ainda: existem coisas que sempre estiveram na nossa frente mas alguma espécie de cegueira injusta sempre nos impediu de ver.
E aí quando a gente enxerga essas coisas, tudo se quebra. A resposta aparece de mãos dadas com milhares de justificativas e a partir daí nenhum remendo é suficiente por mais que esforços sejam feitos.
Só resta um desafio: aprender um olhar de um novo ângulo que possa garantir a aparição dos tão famosos sorrisos.
“There is taste
for everything
and for everyone,
and for everyone but me”
sem_título
Fiquei 3 dias “em casa”. Um banco de horas estourado teria se transformado em uma semana de folga. Foram na verdade 3 dias sem trabalhar, ou seria sem ganhar?
Na segunda uma despedida. Apesar do dia bom e da volta prometida com hora e data marcada, o vazio cresceu. Saber que quando der vontade ao menos um telefonema ameniza e já conforta. Agora tem que esperar pelo dia 14, quase 15. Até lá é um buraco crescendo e fazendo eco.
Terça e quarta sem muito o que fazer, deixava a parte divertida para o final da semana. Pensamentos pipocam, desgostos amargam a boca e inseguranças apertam o peito. E eu achava que tinha mudado. Na verdade só havia me ocupado. Cabeça vazia oficina do capeta. Nunca vi ditado mais sábio e verdadeiro.
A chuva chegou como sempre no mesmo horário. Com ela a sensação de que tudo vai por água abaixo, rua sem fim. Mas ela passa e tudo fica. O calor aumenta e a angústia também. Um sufoco. Uma sede que água nenhuma dá conta.
No fim são só um montante de palavras sem muito nexo jogadas em um bloco de notas sem título. Tão confusas como o turbilhão que me acomete a cada minuto. Sem revisão e sem direito a correção. Que fique assim, do jeito que tiver que ser.
No fim, acabou a folga. Acabou a possibilidade de coisas diferentes. Tudo ficou pra trás e na verdade nada mudou.
Amanhã tudo volta.
50 dias em um
Só porque toda vez que tenho 50 dias em um, 49 deles são ruins.
E porque ele está lá, no lugar costumeiro. Depois de criar a situação e transformar meu dia em 49 ruins.
Definitivamente não era amor o que tinha naqueles olhos… e eu ainda acho que devia ser. A palavra incondicional é muito fora de moda, principalmente quando se vive 50 dias em um.
Ele sempre esteve lá mas o espaço parece cada vez menor. Alguém tem que sair, mas ninguém se move.
O óbvio fica subentendido e jogado pra baixo do tapete. É mais fácil culpar quem não fez nada de errado.
É difícil demais viver 50 dias em um. Ainda mais pra quem se importa…


