Novos Horizontes*
“aquele sentimento que era passageiro não acaba mais”
_ Oi, tudo bem?
_ Oi, tudo bem e você?
_ Tuuuudo certo!
Ela respondia com um sorriso plástico beirando o dissimulado. Já nem prestava atenção no que as pessoas perguntavam, o “tudo bem” era um reflexo, o pouco de educação que lhe restava. Algo muito longe da verdade.
Ela dizia o “tudo bem” com a esperança contida de que um dia falasse novamente as duas palavras não apenas da boca pra fora. A esperança de que amanhã o sol voltasse a brilhar, assim mesmo, tão piegas quanto naquelas citações de agenda que ganhamos de algum comércio.
Não sabia dizer ao certo o porquê não estava tudo bem. Mas também, ninguém se importava. No máximo fingiam.
Afinal desde pequena sabia que aquele “tudo bem” indagado aos quatro cantos nada mais era do que uma regra de convivência social. E só!
“corpos em movimento universo em expansão”
Desde aquele dia –que ela já nem lembrava mais qual era ao certo– tudo tinha mudado. As esperanças de seu coração vão sumindo. O viço de seu rosto vai caindo. Já fazia tempo que nem se quer era surpreendida por um olhar furtivo na rua. Justo ela, que diziam tão bonita.
“Beleza não é nada se você não responde ao “tudo bem” com verdade”, pensava.
Todos seguiam seus rumos, todos evoluíam e ela ali. Parada. Inerte. Sem saber pra que lado ir. Se é que restou algum dos caminhos sem barreiras para enfrentar. Lutar era o que devia. Só não encontrava mais forças pra isso.
Pelo menos não agora.
“não tenho pra onde ir mas não quero ficar”
A correria naquela avenida fria que outrora lhe causava admiração e calma. Agora também a assustava. Todos pareciam ter um rumo certo, destino traçado, vida estável.
E ela? Ali. Ainda inerte.
Tinha vontade de parar um estranho qualquer ali e perguntar o porquê de tudo aquilo. O que acontecia? Só ela se sentia assim? Era invisível por acaso? O curioso é que ela era invisível quando não queria e nas poucas vezes em que queria passar totalmente desapercebida todos pareciam apontar e rir.
Será que estaria ficando louca? Ainda penteava os cabelos rebeldes ao menos. Era a segurança que lhe restava.
Vendedores ambulantes ofereciam tudo à ela. Uma placa em um poste qualquer oferecia consultas de amor. Um mendigo oferecia a mão espalmada em busca de ajuda. O farol aberto oferecia a faixa do lado oposto. Lojas ofereciam felicidade instantânea em forma de consumismo.
Mas na verdade o que ela queria, o que ela precisava realmente, ninguém parecia poder oferecer.
Andou mais um pouco, divagou, limpou as lágrimas do rosto e resolveu fechar tudo ali dentro dela novamente. Ninguém entenderia. Ninguém pode fazer nada.
O triste é que ela sente que nem ela pode.
Entrou no primeiro metrô e tomou o rumo de casa. Afinal…
“o que não tem fim sempre acaba assim”
*Inspirado na música “Novos Horizontes” da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii
(Vídeo que peguei do youtube by “ademo01″. Trecho do finado programa Bem Brasil no Sesc Interlagos em 01)
Na cama
É ali, naqueles minutos que sucedem o abrir dos olhos, o recuperar da consciência que divago o máximo possível. Tudo que tem me encomodado vem a tona sem dó nem piedade. Logo que acordo sou bombardeada com um verdadeiro turbilhão de sentimentos, ansiedades e pensamentos infinitos.
É ali onde me permito ser o mais parecida com quem realmente sou. Sou só eu, os lençóis e algumas cobertas que me fazem companhia nesse frio. Não há censura, nem pudor, nem tão pouco vergonha.
Ali sou quem sou. Quem posso ser. Infelizmente não sou quem quero ser. Querer e poder deixaram de ser sinônimos há muito.
Ridiculamente é a hora que sonho com mais profundidade, com mais verdade. O onírico dá lugar para o real. Sonhar com a realidade pode ser belo, mas na maior parte das vezes, não vou mentir, é doloroso. Porque temos a consciência de que tudo é somente um sonho. Se for cruel o bastante posso dizer que são mentiras inventadas pra amenizar o novo dia que aparece.
Começo sempre pensando nas saudades, nas vontades, nos desejos, nas lembranças do que não volta mais. Passo a sonhar acordada pra amenizar tudo que me aflige. Mas sempre acabo sabendo que são só mentiras.
Levantar e enfrentar o que vem pela frente, seja lá o que for, é a única opção que me resta. A que menos quero, mas como disse, a única que posso.
Mas amanhã a cama volta e nela serei novamente eu, sem máscaras, sem rótulos, com desejos e sonhos. Infinitos.
Wannabe
Se eu pudesse escolher qualquer coisa pra ser, eu escolheria ser um músico bem sucedido.
Ao ler bem sucedido, não leia um contrato milionário com uma mega gravadora, nem milhões de cópias vendidas. Leia um músico competente no que faz e que tenha alguns fãs fiéis que o apóiem mesmo quando ele der um piti e resolver tocar viola caipira.
O que eu queria na verdade era poder saber qual a sensação de ter dezenas de pares de mãos apontadas para o céu sob o seu comando e poder ouvir diversas cordas vocais emitindo os sons da música que você fez um dia sem pretensão alguma.
Deve ser a melhor sensação do mundo. Eu acho.
Diga-me o que preferes…
Penso que se há um modo inteligente, sutil e muito eficaz de conhecer alguém é através de suas preferências culturais. Isso mesmo, procure saber os filmes, seriados, livros e músicas favoritas da pessoa em foco.
É questão de sensibilidade e vontade é claro, mas garanto que encontrará muito da pessoa que ela é hoje ao se interessar pelos seus ídolos.
Por esse mesmo ângulo, espero que fique feliz quando alguém quiser dividir com você as suas preferências. Eu pelo menos, quando faço isso é porque confio em você, salvo raríssimas exceções.
Essa teoria pode ser uma versão evoluída e menos maternal do “Diga-me com quem andas que direi quem tu és”. Talvez pudesser ser intulada de “Diga-me onde tu espelhas que saberei quem tu és”.
Não é raro percebermos traços da personalidade da pessoa em algum filme preferido dela, ou vai dizer que você nunca viu um fã de Amelié Poulain falar de suas preferências com uma certa poesia? Claro que viu, eu fiz isso alguns posts atrás oras.
E se a pessoa não ganha alguma coisa do enredo, ela certamente se enxerga ali de alguma forma para ter tanta paixão pela personagem. É questão de familiaridade. Dificilmente você gosta de algo muito oposto a você.
Tive certa vez uma amiga que todos consideravam cultíssima, inteligentíssima e todos outros “íssimas” que casarem com QI elevado. Não menosprezo de maneira alguma seus neurônios, mas depois que passei a ver e ouvir muito do que ela preferia passei a também identificar frases de outros autores em sua boca. E ela nem se quer preocupava-se em identificar a autoria.
E música então? Não é a toa que tanta gente que só ouve Coldplay tem tendência suícida! hahahah Tá bom, talvez eu exagere aqui porque não suporto a tal banda. Mas então, vamos falar do que eu conheço. Alguém já conheceu um fã de engenheiros do hawaii se quer que não tenha uma certa queda pelo Sul do pais?
Sem contar as piadas internas que surgem em determinados grupinhos que têm a mesma preferência. Believe me, você só vai entendê-las se procurar a raiz de tudo aquilo.
Ah sim, devo alertar que se a pessoa tiver a chamada “personalidade esponja” fica bem difícil aplicar a teoria. Mas aí nem precisa né? Você já deve saber que a pessoa é um sem personalidade mesmo, praticamente um parasita! heheh
Me defendo antes do ataque: muita coisa do que gosto me foi apresentada através de outras pessoas, óbvio. Mas pra ser uma esponja você precisa absorver qualquer coisa que lhe for apresentada, sem o mínimo critério.
Ídolo. Musica. Banda. Autor. Livro. Filme. Ator. Atriz. Seriado. Os preferidos. Humberto Gessinger. Piano Bar. Pearl Jam. Marcelo Rubens Paiva. Apanhador no campo de centeio. Quase famosos. Johnny Depp. Meg Ryan. Gilmore Girls.
Diga-me quais são os seus preferidos que direi quem tu és.
“Orelha não tem pálpebra”
Essa expressão não sai da minha cabeça. Me deparei com ela na semana passada enquanto terminava de ler o “Vergonha dos pés” da Fernanda Young. Livro que gostei muito por sinal. Me deparei com ele em um sebo enquanto voltava de uma entrevista e acabou sendo uma daquelas boas aquisições que fazemos por acaso.
Dois dias depois meu pai me disse outra coisa parecida:
“O segredo pra gente ser feliz filha é desligar os canais que nossos ouvidos tem com nosso coração e com nosso cérebro. Coisas ruins tem que entrar por um ouvido e sair pelo outro. Se não a gente sofre mesmo”.
Logo ele, que geralmente fala um idioma bem diferente do meu.
Infelizmente o ouvido é um canal receptor sempre aberto. Nem uma piscadela nos salva de coisas indesejáveis. Ouvir não é uma opção.
E assim, diariamente somos bombardeados com barulhos e falas indesejáveis. Pode ser uma ofensa desnecessária, um xingamento no trânsito, um choro de criança pra lá de perturbador ou alguma conversa alheia que não acrescenta nada na nosa vida.
Ouvir nunca vai ser uma opção. Afinal orelha não tem pálpebra.
Preciso de um beliscão
Belisca vai, mas belisca com força que só assim vou acreditar.
Fazia tempo que não me sentia vivendo em um sonho. Foram poucos minutos eu sei, mas bem que eu queria que fosse por tempo indeterminado.
Pena que não depende só de mim, aliás, daqui pra frente não depende nada de mim eu acho. Fui lá, falei, ouvi, disse, escutei, sorri e recebi sorriso de volta. Aperto de mão e beijinhos no rosto e claro… “eu te ligo” com o plus do “independente da resposta”.
Ah se desse certo, eu seria uma pessoa bemmm feliz. Mesmo com a viagem diária.
Passei hoje de manhã por aquele portão e adentrei um reduto de onde ficam todos os melhores programas da TV aberta que consigo imaginar. Só pode ser sonho.
Curioso que tudo que passam pra nós nesse caso realmente é de verdade. As pessoas se cumprimentam, sorriem, o clima é leve sabe? Ar puro em plena capital. Tá, posso até estar exagerando, mas é que ainda estou entorpecida.
Me perdi lá dentro meio que de propósito e vi cenários conhecidos, peças perdidas de lembranças jogadas em algum canto do meu cérebro. E quando realmente me perdi, um menininho que me fazia companhia em todas as tardes da minha infância — agora já não tão menininho assim — me mostrou pra onde devia ir.
É sonho, só pode. E por favor, eu não quero acordar! Não me acorda não vai, e me deixa sonhando por bem mais do que cinco minutinhos, eu imploro!!
Viver do sonho seria bem bom sabe…
Júri do vestuário
Quando se trata de julgamento nada nunca vai ser mais ridículo do que achar que conhece uma pessoa pelo que ela veste. Nunca entendi muito bem essa história de ter uma roupa certa pra cada ocasião, acho que cada um tem que ter um estilo e pronto.
Qualquer exigência é um porre, a da roupa sempre vai ser a pior.
Pior ainda quando acham que seu Q.I está explícito em uma roupa. Pra você ir bem em uma entrevista de emprego importa mais se está de sapato e terninho do que se você tem conhecimentos para a vaga oferecida. Existe coisa mais absurda?
Se eu pudesse só trocaria meu All Star por pantufas, que são ainda mais confortáveis. Insisto que se um dia eu casar é o tênis que vai figurar no meu pé, nada daqueles saltos e bicos finos medonhos.
Concordo que não dá pra ir de mini saia e barriga de fora em uma coisa formal, mas poxa, o que tem de errado em uma calça jeans??
Sei lá, pode ser contra os princípios empregatícios do mundo afora, mas pra mim sentir bem é fundamental.
Ou seja, abro o armário e o que sorrir pra mim é que vai me acompanhar.
Das coisas que eu entendo*
“Não há raiva, não há morte, só arrependimento e amor. E disso tudo eu entendo muito bem!”
A porta da sala bateu e um ruído forte e seco se propagou por toda a casa, todo o corpo, toda a vida. Tudo aquilo que acreditavam ser sólido.
Fazia tempo que nada era como queriam. Queria viver um sonho, um dia que fosse daqueles em que se dorme com sorriso estampado no rosto e em que se sente a vida passar levemente.
Ou então, topavam até o extremo oposto, uma briga fenômenal com direito a feridas abertas e insultos pra lá de grosseiros. Desde que acabasse em um abraço e diversos pedidos de desculpas, é claro.
Mas o que tinham era só o tédio, a rotina. Um desconforto crescente no peito que às vezes parecia explodir. Uma explosão por ora contida, explodir também não fazia mais efeito.
Será que tinham chegado no limite?
O limite de um amor de verdade, o limite de uma convivência normal. O limite entre o bom dia na cama e o adeus daquela saída.
Nunca saberiam.
“Você não ligou quando eu disse para ter cuidado. Tinha razão você precisa ser livre.”
*Inspirado na música “Das coisas que eu entendo” da banda gaúcha Nenhum de Nós
Vídeo by Rê
Por que não eu?
Eu só queria uma resposta, só isso. Não é pedir demais, será que é?
Na verdade tenho a impressão que tudo ali é pedir demais. Até um sorriso custam a te oferecer. As pessoas passam por você como se fosse invisível, em compensação quando você quer ser invisível te jogam um neon brilhante sobre a cabeça e aí… ahh, melhor nem lembrar.
O pior de tudo é que eu queria uma resposta que nem se quer precisa de pergunta. Ela devia vir já sabe anexa aos fatos, desfarçada de consideração. Era o mínimo que poderiam fazer, bem o mínimo.
Sei lá, esperava que ao passarem os outros na minha frente, me dessem uma resposta.
Se é assim, fico só com a minha resposta. E ela é verdadeira. O triste é que andei ouvindo por aí que a verdade dói.
Dói tanto que tá cada vez mais difícil de lidar com ela. Pisar ali me faz mal.
Mais e mais e mais…
“Um gosto de quero mais”. Esse era o nome de um livro que li durante a adolescência, ou pré-adolescência, algo assim, sei que estava no fim do ginásio. A história era sobre uma garota de uns 16 anos que queria muito mais da vida do que tinha. O triste é que ela acabou grávida. Mas enfim, lembrei desse livro ontem e…
O fato é que ando me sentindo exatamente como a garota, apesar de ter praticamente 10 anos a mais do que ela. Será que isso significa que estou tendo uma crise de adolescência tardia ou de que a minha vida realmente está um marasmo?
Talvez só signifique que eu ainda tenha vontade de viver né?!?
Deixando a procura pelo significado de lado; vamos às consequências. Eu acordo já pensando em sair por aí e passar um dia longe de tudo que me preocupe, mais irresponsabilidade, mais impulsividade, mais inconsequências. Dá vontade de comprar tudo que vejo pela frente, de comer tudo que tem na praça de alimentação, de ver todos os filmes que estão no cinema e de ir a todos os shows possíveis, mesmo que sejam na prática, impossíveis.
E nos relacionamentos então? Cara, que vontade de mergulhar de cabeça em tudo, vontade de declarar alguém que acabei de conhecer como amigo de infância. Tenho até sonhado em casar e ter uma renca de filhos. Como pode?
Vontade de me jogar de cabeça em trabalho, ser daquelas jornalistas malucas que vivem só pelo serviço, passar 12 horas numa redação e morrer de falta de café. Vontade de fazer 50 mil cursos ao mesmo tempo, aprender espanhol, italiano e por que não grego??
Sem contar o tanto que queria colocar uma mochila nas costas e sair por aí, conhecer um monte de lugares. Fingir que não sou eu, inventar um personagem e deixar que a vida me leve pra onde quiser. Praticamente um anãozinho inconsequente de filme cult.
É, uma vontade de querer, uma necessidade de ter, querer e ter sempre!
Eu quero, muito e tudo. O dificil é ter. E não sofrer as consequências.


