“É sempre mais difícil dizer adeus…”*
Eu já disse né? Achei que era mais simples… você recebia a notícia triste, algo se quebrava e clic! o estalo trazia a dor.
Mas eu recebi a notícia e fiquei inerte, só pensava em ficar forte e confortar minha mãe. Pela primeira vez era eu quem precisava cuidar dela. O difícil era controlar a dor querendo sair daqui de dentro a todo custo.
E a ficha não caía.
No trabalho derramei as primeiras lágrimas pra lá de amargas, alguns amigos me confortando e gente que mal conheço me olhando cheios de curiosidade. Na volta pra casa o ônibus vazio estava me sufocando de tantas lembranças que embarcaram comigo e de tanta saudade que crescia, se reproduzia e suplicava pela minha atenção.
Mais estranhos olhando com curiosidade…
Queria dizer pra eles que o que acontecia era a perda de uma pessoa muito querida, muito importante, praticamente uma segunda mãe. Uma mulher pra lá de forte que nunca deixou transparecer tristeza ou dor alguma. A responsável pelos cachinhos mais perfeitinhos que já habitaram minha cabeça (e olha que eu reclamava), pelas tardes chuvosas mais gostosas com o cheiro de bolinho de chuva, por todos os bichinhos de origami que sei fazer…
Por que eu não disse? Porque eu não queria acreditar. A ficha só caiu quando cheguei lá na capela daquele lugar amplo e gélido. Não tive nem tempo de escolher se queria a ver ali deitada; mal cheguei e já dei de cara com ela confortavelmente deitada em sua nova e última morada.
Ao menos tiveram cuidado de passar talquinho, o cheiro tão característico dela. Sem talquinho não era a minha vó… Pensando assim eu talvez preferisse que o cheiro fosse outro…
Aquela quinta-feira parecia tão boa; e depois da notícia se transformou facilmente no pior dia da minha vida, só perdeu para a sexta quando a despedida se fez.
É hora de levantar do chão, hora de aceitar que as coisas tem que ser como Ele quer, hora de pensar que ela está em um lugar melhor olhando pra todos nós aqui. Hora de aceitar a saudade no coração, lavar o rosto e cuidar da vida…
Afinal, a hora dela chegou.
* “Quando não há nada mais pra se dizer …”


