Robs observando

O mundo pela minha ótica

Só… ela

Lá fora tem um sol radiante mas dentro de casa a menina usa moletom. Talvez pra se proteger do frio que sente vindo de si, talvez pra se proteger dos olhares gélidos que vem de lá. Ou será que não existe frio? Talvez seja só a calota polar que ela constrói em torno dela. E mal percebe. Talvez seja imaginação, mania de perseguição, vontade de ser invisível saciada. Talvez seja verdade, crueldade, maldade, nenhuma piedade. Talvez nem se importem e seja só indiferença. Mas pode ser a indiferença só?

Respostas ela não tem, perguntas pra variar tem demais. Diferente? Obsoleta? Estranha? Depressiva? Dramática? Aumenta tudo que vê? Tudo que sente? Tudo que deseja sentir? Que deseja ter? Que deseja viver? Que deseja ser?

Com o tempo o frio vira calor. Calor incontido, suor pelos poros, respiração ofegante e devaneios. Sufoco, falta de ar. Gotas no vidro, hálito quente. Vontade de sumir, de parir, de se unir, de sair. Sair de lá pra outro lugar, sair dela pra outra pessoa totalmente diferente. Diferente no olhar, no gosto, no corpo, no sentimento.

O sol já não está tão forte. Ela tira o moletom. Joga em qualquer canto, entra no banho e desenha o que lhe vem a mente no espelho. Se olha e não sabe quem é. Não sabe de nada, não quer saber. Só quer ser. Alguém, ninguém. Qualquer um que não se preocupe em saber.

Sem sol. Sem frio. Sem sentimento. Sem pergunta. Sem julgamento.

Só.

1 Dezembro, 2008 Publicado por robservando | Fantasia | | 2 Comentários

Fast-help

Na placa…

PLANTÃO DE PSICOLOGIA GRATUITO: DEPRESSÃO, PÂNICO, ANSIEDADE.

Na calçada…

um garoto meio perdido ensaiava alguns passos em direção a portinhola. Quando se aproximava parecia pensar melhor no que ía fazer e voltava atropelando quem passasse por ali. A calça surrada, o moletom gigante e o cabelo desgrenhado mostravam qualquer um de sua idade.

As marcas que carregava mostrava quem ele realmente era. O problema era que nem ele mesmo sabia disso. No entanto havia a vontade incontida de descobrir e o medo escancarado do que estaria por vir.

Em poucas horas o plantão inusitado acabaria e ele iria mais um dia pra casa sem ter se quer tentado.

Em um dado momento uma coragem súbita o invadiu e foi decidido subindo aquela escada estreita que parecia nunca acabar.

Na recepção…

Uma atendendente entregou uma ficha gigante com vários quadradinhos aflitos esperando pelo “x” e perguntas intermináveis: tentativa de suícidio, drogas, assassinato…

Devolveu a ficha com uma ou outra marcação entre aquela lista interminável.

“Mas eu só queria conversar um pouco”. Foi tudo que conseguiu dizer em meio a tantas frases ditas com descaso. Ao meio de tanto vazio, de um olhar que nunca parecia cruzar o seu. Daquela sala gélida e dos tacos de madeira soltos pelo chão.

“Tem muita gente pior que você, faça-me o favor rapazinho”

Na volta pra casa…

Foi embora levando consigo sua tristeza, seu medo e sua expectativa.

Ainda tinha alguma coisa pra levar ao menos, só não sabia por quanto tempo. Afinal, tinha muita gente pior que ele.

Era o que diziam.

9 Outubro, 2008 Publicado por robservando | Fantasia | | 3 Comentários

Novos Horizontes*

“aquele sentimento que era passageiro não acaba mais”

_ Oi, tudo bem?
_ Oi, tudo bem e você?
_ Tuuuudo certo!

Ela respondia com um sorriso plástico beirando o dissimulado. Já nem prestava atenção no que as pessoas perguntavam, o “tudo bem” era um reflexo, o pouco de educação que lhe restava. Algo muito longe da verdade.

Ela dizia o “tudo bem” com a esperança contida de que um dia falasse novamente as duas palavras não apenas da boca pra fora. A esperança de que amanhã o sol voltasse a brilhar, assim mesmo, tão piegas quanto naquelas citações de agenda que ganhamos de algum comércio.

Não sabia dizer ao certo o porquê não estava tudo bem. Mas também, ninguém se importava. No máximo fingiam.

Afinal desde pequena sabia que aquele “tudo bem” indagado aos quatro cantos nada mais era do que uma regra de convivência social. E só!

“corpos em movimento universo em expansão”

Desde aquele dia –que ela já nem lembrava mais qual era ao certo– tudo tinha mudado. As esperanças de seu coração vão sumindo. O viço de seu rosto vai caindo. Já fazia tempo que nem se quer era surpreendida por um olhar furtivo na rua. Justo ela, que diziam tão bonita.

“Beleza não é nada se você não responde ao “tudo bem” com verdade”, pensava.

Todos seguiam seus rumos, todos evoluíam e ela ali. Parada. Inerte. Sem saber pra que lado ir. Se é que restou algum dos caminhos sem barreiras para enfrentar. Lutar era o que devia. Só não encontrava mais forças pra isso.

Pelo menos não agora.

“não tenho pra onde ir mas não quero ficar”

A correria naquela avenida fria que outrora lhe causava admiração e calma. Agora também a assustava. Todos pareciam ter um rumo certo, destino traçado, vida estável.

E ela? Ali. Ainda inerte.

Tinha vontade de parar um estranho qualquer ali e perguntar o porquê de tudo aquilo. O que acontecia? Só ela se sentia assim? Era invisível por acaso? O curioso é que ela era invisível quando não queria e nas poucas vezes em que queria passar totalmente desapercebida todos pareciam apontar e rir.

Será que estaria ficando louca? Ainda penteava os cabelos rebeldes ao menos. Era a segurança que lhe restava.

Vendedores ambulantes ofereciam tudo à ela. Uma placa em um poste qualquer oferecia consultas de amor. Um mendigo oferecia a mão espalmada em busca de ajuda. O farol aberto oferecia a faixa do lado oposto. Lojas ofereciam felicidade instantânea em forma de consumismo.

Mas na verdade o que ela queria, o que ela precisava realmente, ninguém parecia poder oferecer.

Andou mais um pouco, divagou, limpou as lágrimas do rosto e resolveu fechar tudo ali dentro dela novamente. Ninguém entenderia. Ninguém pode fazer nada.

O triste é que ela sente que nem ela pode.

Entrou no primeiro metrô e tomou o rumo de casa. Afinal…

“o que não tem fim sempre acaba assim”


*Inspirado na música “Novos Horizontes” da banda gaúcha Engenheiros do Hawaii



(Vídeo que peguei do youtube by “ademo01″. Trecho do finado programa Bem Brasil no Sesc Interlagos em 01)

24 Junho, 2008 Publicado por robservando | Divagações, Fantasia, música | | 4 Comentários

Das coisas que eu entendo*

“Não há raiva, não há morte, só arrependimento e amor. E disso tudo eu entendo muito bem!”

A porta da sala bateu e um ruído forte e seco se propagou por toda a casa, todo o corpo, toda a vida. Tudo aquilo que acreditavam ser sólido.

Fazia tempo que nada era como queriam. Queria viver um sonho, um dia que fosse daqueles em que se dorme com sorriso estampado no rosto e em que se sente a vida passar levemente.

Ou então, topavam até o extremo oposto, uma briga fenômenal com direito a feridas abertas e insultos pra lá de grosseiros. Desde que acabasse em um abraço e diversos pedidos de desculpas, é claro.

Mas o que tinham era só o tédio, a rotina. Um desconforto crescente no peito que às vezes parecia explodir. Uma explosão por ora contida, explodir também não fazia mais efeito.

Será que tinham chegado no limite?

O limite de um amor de verdade, o limite de uma convivência normal. O limite entre o bom dia na cama e o adeus daquela saída.

Nunca saberiam.

“Você não ligou quando eu disse para ter cuidado. Tinha razão você precisa ser livre.”


*Inspirado na música “Das coisas que eu entendo” da banda gaúcha Nenhum de Nós

 


Vídeo by Rê

 

10 Junho, 2008 Publicado por robservando | Fantasia, música | | 4 Comentários

Creepy

Não sabia ser de outro jeito, intensidade pode complicar, machucar, dividir, mas neste caso, confortaria. Se ela viesse de volta.

Não queria que se sentisse obrigado a devolver tudo que lhe entregava, não queria mudar seu jeito de ser, de amar, de demonstrar o que sente, de enxergar o que pedia aos berros desesperadamente, mesmo que através de sussurros escondidos dentro do peito. 

Na verdade, não queria que nada parecesse assim, mas no fundo talvez realmente queria que pudesse ser assim.

Arrebatamento, paixão, sensação de que o mundo poderia acabar a qualquer instante e que tudo deveria ser feito já. Sem pensamentos demais, sem racionalismo algum, só ter e ser.

Era tudo que queria.

Só sonhava nas mudanças, mas tinha medo de que acontecesse alguma. As mudanças são avisos de coisas ruins, pensava. Então, evitava.

E a vida passava, e a agonia aumentava. A sorte esvaía aos poucos, a dor no peito crescia gradativamente.

O dia chegava ao fim e a cama era seu refúgio. Abraça o travesseiro com força, fechava os olhos com mais força ainda e os pensamentos viajavam, encontravam um lugar examente como planejara e ali ficava até o dia seguinte.

No dia seguinte, pensaria em tudo novamente, exatamente do mesmo jeito.

Era um ciclo. Aparentemente sem fim.

21 Maio, 2008 Publicado por robservando | Divagações, Fantasia | | 3 Comentários